sexta-feira, 22 de abril de 2011

Outro grito do mês: Desilusão


"The wise man, knowing how to enjoy achieved results without having constantly to replace them with others, finds in them an attachment to life in the hour of difficulty. But the man who has always pinned all his hopes on the future and lived with his eyes fixed upon it, has nothing in the past as a comfort against the present's afflictions, for the past was nothing to him but a series of hastily experienced stages. What blinded him to himself was his expectation always to find further on the happiness he had so far missed. Now he is stopped in his tracks; from now on nothing remains behind or ahead of him to fix his gaze upon."

Emile Durkheim

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Grito do mês - Desapontamento


O thou, my lovely boy, who in thy power
Dost hold Time's fickle glass, his sickle, hour;
Who hast by waning grown, and therein show'st
Thy lovers withering as thy sweet self grow'st;
If Nature, sovereign mistress over wrack,
As thou goest onwards, still will pluck thee back,
She keeps thee to this purpose, that her skill
May time disgrace and wretched minutes kill.
Yet fear her, O thou minion of her pleasure!
She may detain, but not still keep, her treasure:
Her audit, though delay'd, answer'd must be,
And her quietus is to render thee.

Shakespearean Sonnet 126 O thou, my lovely boy, who in thy power

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Um grito em forma de livro: Al Berto, O Medo


O medo cresce lentamente, sentimo-lo invadir-nos, corroer-nos, como se fosse um novo e estranho frenezim. O Medo de Al Berto cresceu assim. Revela-se no confessionalismo e na sensualidade de um corpo excessivo, das palavras que gritam o sufoco embriagado de uma juventude febril, num tempo de sentir tudo. As histórias de um viandante sem rumo, errante nas noites plenas de rituais de iniciação porque “é imprevista a melodia das paixões”. Depois, vem o tempo do desencanto, do corpo cansado, das memórias da terra e da madurez. Tempo de lágrimas escorridas. Quando, no fim, reaparece a solidão e o medo, voltamos a perceber que “escrita é a minha primeira morada de silêncio”.

Um grito na vida: Carl Dreyer


“A Palavra” de Carl Dreyer (1955) é uma das grandes referências da história do cinema.
Tendo como tema a fé e o milagre, sob a forte influência do pensamento do filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard, o filme apresenta uma forte tensão existencial que lhe permite não só representar o tempo de transição em que foi concebido e produzido mas também assumir uma dimensão intemporal que hoje lhe concede uma aura muito especial.
O velho Morten Borgen e os filhos Mikkel e André começam por procurar Johannes o irmão mais novo que na sua loucura julga ser uma encarnação de Jesus Cristo. Inger mulher de Mikkel está grávida, tenta consolá-los. Entretanto as coisas precipitam-se, acontece o parto prematuro do filho de Inger, a que se segue a morte do recém-nascido. Isto enquanto Borgen discute com Peter a hipótese de casamento da filha deste com Johannes. Mas Inger não resiste e morre, como Johannes profetizara. Quando se prepara o funeral da jovem mãe, Johannes aparece, com uma surpreendente lucidez e acusa Mikkel de falta de fé por nada ter feito para fazer voltar à vida a mulher cuja alma, mas também o corpo, amava … E é a partir deste momento que o milagre ocorre, com o surpreendente regresso à vida de Inger, fazendo reviver o episódio de Lázaro.
Trata-se de uma adaptação da peça teatral homónima de Kaj Munk (1898-1944), pastor e dramaturgo, que Carl Dreyer viu em cena em 1932 – e que causou no cineasta uma forte impressão, obrigando-o a uma relação inteiramente nova com a espiritualidade.

Um grito a dois: Albrecht Durer

domingo, 23 de janeiro de 2011

Outro grito maior que a vida


What happens when you bring the worlds of jazz and Monteverdi together? Is there a musical meeting-point where the two can exist? Claudio Cavina clearly has been believing in this possibility for some time (witness some very “modern” moments in his recent Glossa recordings of the Scherzi musicali and L’incoronazione di Poppea).

Yet this is not La Venexiana playing jazz: Cavina and his musicians do not change a note of the original scores. Instead they bring all their experience and expertise of playing Monteverdi’s madrigals, sacred music (the 1610 Vespers being their current performing focus) and operas to bear on a group of “ ballads” from the 17th century, but in the company of a select quartet of improvising jazz musicians on saxophone, accordion, double bass and drums and all with the warm, soaring story-telling vocal tones of Roberta Mameli shining through as the protagonist.

The clue lies in the album’s title, with the musicians tipping their hats and paying hommage to jazz standards. And Cavina says that within Monteverdi ’s music, “there is something modern, something new and innovatory which encourages one to dare, to go further.” Listen to the results...

Grito 46

Não, não é Cansaço...

Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
E um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...

Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço por quê?
É uma sensação abstrata
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...

Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!...

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa