segunda-feira, 19 de abril de 2010

Um grito na vida: The Bridge


The Bridge is a 2006 documentary film by Eric Steel that tells the stories of a handful of individuals who committed suicide at the Golden Gate Bridge in 2004. The film was inspired by an article entitled "Jumpers," written by Tad Friend appearing in The New Yorker magazine in 2003

sexta-feira, 16 de abril de 2010

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Grito 31

Trovão

Ontem à noite
Trovejaste dentro de mim.
Não reparei, perdida que estava na tua carne.
Só as nódoas nascidas com a luz do dia
O confirmaram.
O meu corpo fala-me do teu
E conta-me o que de ti próprio não sabes.

Gostava de estar mais presente, nesses momentos
Mas o teu corpo, o teu cheiro, os teus líquidos distraem-me
Do cenário
Que o teu trovão destrói ao iluminar as minhas marcas.

Enquanto procuramos coisas diferentes um no outro
Partilhamos o gozo, a dor e o fim para o qual combinámos
Estratégias que evitam o embaraço.
Somos inteligentes e sós. Não sabemos lidar com os outros sem a sua utilidade.

Não tenho uma imagem completa do teu corpo.
Nem tão pouco do teu rosto. Cada vez que te vejo é uma surpresa e acho-te sempre bonito, de novo.
A fragmentação dos nossos encontros permite fixar-me no que mais me agrada em nós e juntar essas partes com outras partes de outros encontros. E imaginar um céu na terra, em dias húmidos nos olhos.

Quando deixares de vir
E eu sentir a ausência absoluta do que me davas
Terei uma história preparada para me contar: fragmentos de frases
Que dizias quando te doía o corpo do nosso encontro.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Um grito em forma de livro: Os passos em volta, Herberto Helder


Aparentemente um livro de contos, histórias de enredos simples, mas romanticamente transcendentes, representam os passos de um homem em torno da sua existência, sem respostas paradigmáticas, num vazio que se procura transformar em matéria. Sobeja-lhe o corpo, divino, prodigioso e redentor, onde regressa sempre.
“Talvez pudesse ouvir passos junto à porta do quarto, passos leves que estacariam enquanto a minha vida, toda a vida, ficaria suspensa. Eu existiria então vagamente, alimentado pela ciolência de uma esperança, preso à obscura respiração dessa pessoa parada. Os comboios passariam sempre. E eu estaria a pensar nas palavras do amor, naquilo que se pode dizer quando a extrema solidão nos dá um talento inconcebível. O meu talento seria o máximo talento de um homem e devia reter, apenas pela sua força silenciosa, essa pessoa defronte da porta, a poucos metros, à distância de um simples movimento caloroso. Mas nesse instante ser-me-ia revelada a essencial crueldade do espírito. Penso que desejaria somente a presença incógnita e solitária dessa pessoa atrás da porta. Ela não deveria bater, solicitar, inquirir”, conta-nos Herberto Helder na magnífica prosa a que nos habituou.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Um grito na vida: Alain Resnais



Amor Eterno é um dos mais belos filmes do cineasta francês Alain Resnais. Nomeado em 1985 para cinco Césars, aborda, através das histórias de dois casais, os laços estreitos e ambíguos entre o amor e a morte, o prazer e a dor, a paixão e a solidão., tratando estas questões profundas de forma simples e directa. Judith e Jerôme Martignac vivem juntos há dez anos, num clima de profunda cumplicidade e exaltação. São os dois pastores protestantes, apesar de terem concepções pessoais bastante diferentes da fé. Já a história de amor de Elisabeth Sutter e Simon Roche, que estão juntos há apenas dois meses, é atravessada pelo medo da separação que eles julgam ser iminente. Simon está bastante doente e não quer recorrer a qualquer teste médico. Elisabeth e Simon são, assim, dois seres contrastantes, mas que se completam: ela luminosa e radiosa pela graça do amor, ele sombrio e torturado por uma lembrança angustiante.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

sábado, 3 de abril de 2010

Grito 30

Passaste-me

Passas por mim e já nada me dói. Passaste-me. Só me apetece a cama quente de Inverno, a televisão ligada a um canto a fingir que está ali alguém, os jornais do fim-de-semana quase a serem lidos e ninguém por perto para opinar sobre as minhas rotinas. Passaste-me. E esse pensamento ocupa-me. Doeu tanto, chorei, gritei, mordi os lábios para não chorar em lugares públicos, apertei as mãos vazias, achei que morria, ninguém como tu. E olha o que aconteceu: passaste-me completamente; passaste-me ao lado. Que desperdício de tempo e disponibilidade interior: gostar, cumprir rituais, desencontrar, sofrer, deixar de gostar e pensar em tudo isto. E agora eu aqui, deitada na cama sem me apetecer fazer seja o que for que não isto: pensar sobre isto. Sinto-me estranha por me teres passado. É como se tivesse estado muito tempo doente e agora a saúde faz-me mal. Apetece-me este quarto familiar, os meus objectos, o comando da televisão para fazer zapping e encher o quarto de diferentes luminosidades. Quero o habitual para me ajudar a suportar o diferente. Eu era uma ferida aberta e qualquer gesto teu, qualquer movimento, palavra, atitude faziam sangrar e crescer a ferida. Ninguém me podia tocar. Tudo me doía. Até o carinho de outros me fazia mal. Parecia uma coisa do diabo. Mas não era, era mesmo uma coisa muito minha. Uma forma própria de sofrer no limite do tolerável e depois voltar à vida semi-anestesiada. Aprendi isto a correr. Corri sempre muito e sempre acima das minhas forças. No fim de cada corrida, estava pronta para cair para o lado, desmaiar e precisava sempre de algum tempo para me restabelecer. Na vez seguinte fazia o mesmo e nunca deixei de o fazer. Ganhei resistência, aquele fundo dos maratonistas, e isso reflectiu-se no resto da minha vida. Por isso, quando me passaste, quando me deixaste de doer não fiquei muito surpreendida. Apenas vazia daquela dor que me fazia companhia, que me identificava. Quem seria eu sem a tua memória, sem ti? A minha memória de ti estava completamente desactualizada, não te via há anos, mas era uma memória fiel que me recordava do que tínhamos sido capazes. E fomos muito capazes, demasiado. Até que aparece a dor sob a forma de ciúme, raiva, mágoa e eis que dois gigantes lutam na fúria dos sentimentos, à espera, cada um, de ficar com o bocado menor de sofrimento. Tiveste sorte. Ou tive azar. Eu passei-te melhor: quase não sangraste nem adoeceste. Ouvi dizer que te escondeste um pouco para não te verem sofrer. E é justo que assim seja.