domingo, 28 de fevereiro de 2010

Um grito em forma de livro: O chão que ela pisa, Salman Rushdie



A história é uma recriação moderna do mito de Orfeu e Eurídice. Decorre em Mumbai, Índia e tem como protagonistas um casal, Vina Apsara e Ormus Cama, e o fotógrafo Rai, o narrador. Amor, morte e rock-and-roll ajudam a compor um envolvente enredo.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Grito 27

E pronto

E pronto. Eis mais uma história que não aconteceu. Assim foi. Tal como disseste que seria. Uma coisa de nada. Uma pestana no olho. Um encontrão na mesa. Um depósito quase vazio. Nenhum herói, nenhum mártir. Nem lágrimas, nem sorrisos. Talvez uma prega no intestino que me fará morrer. Mas só daqui a muitos anos. Não associarei as coisas. E, contudo, um início tão prometedor, intenso, o desejo a doer nos ossos, a boca seca de fome, uma entrega cega, às escuras. Quase nada. Nada. Depois, outra vida, ou a mesma de outra maneira. Esquece-se depressa. O tempo passa e arrasta com ele os detritos que vamos soltando do encontro com a realidade, parece que é a vida. Carregada de quase nada e quase tudo, o que é rigorosamente o mesmo. E no meio de tantas possibilidades, baralhamos a realidade e vão-se os nomes, os cheiros, os lugares, quem, para o quê, desfocamos a memória e lá se vai tudo num banho de mar.
Então, porque me percorre aquele arrepio fundo que vem da espinha sempre que me parece ouvir o grão da tua voz, mas que nem sequer é a tua, apenas aproximada? Então, porque voltas tão depressa se me viro desprevenida? Então, porque não me sais da cabeça? Tu, uma coisa de nada, uma promessa apenas, uma possibilidade, um quase, um se, um ponto de interrogação. E deste quase nada, ficou-me tudo.
Entretanto, dei, literalmente, a volta ao mundo. Como dizia o poeta “viajar, perder países”, esperando perder outras coisas pelo caminho de volta ao mesmo. E distraí-me nessa roda viva de burocracias, espanto, deleite, decepção, prazer e desconforto que são as viagens. E continuarei a viajar até te perder o rasto, não te saber, talvez não te reconhecer, não estares à minha espera nos meus sonhos, até deixares de ser um quase e passares a ser um nada. Neste trajecto, surgem mais uma pregas por dentro que não associarei à morte. Não o poderia dizer com certeza. E não me lembrarei de ti, nessa altura. Pode ser que recorde de forma confusa tantos quases, ses, pontos de interrogação e tenha pena de não ter tido uma vida por cada uma dessas possibilidades. Não saberia escolher, mesmo que pudesse.
Então, porque me percorre aquele arrepio fundo que vem da espinha sempre que me parece ouvir o grão da tua voz, mas que nem sequer é a tua, apenas aproximada? Então, porque voltas tão depressa se me viro desprevenida? Então, porque não me sais da cabeça? Tu, uma coisa de nada, uma promessa apenas, uma possibilidade, um quase, um se, um ponto de interrogação. E deste quase nada, ficou-me tudo.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Um grito em forma de livro: Bela do Senhor, Albert Cohen


«Bela do Senhor», a obra-prima de Cohen, o mais acabado, o mais denso, o mais louco dos seus livros, é o campo de batalha, sem saída, onde os judeus - povo da antinatura - defrontam os Gentios, criaturas da natureza, adeptos da beleza e das misérias da sedução.

Um grito na vida: Tom Ford



It's November 30, 1962. Native Brit George Falconer, an English professor at a Los Angeles area college, is finding it difficult to cope with life. Jim, his personal partner of sixteen years, died in a car accident eight months earlier when he was visiting with family. Jim's family were not going to tell George of the death or accident let alone allow him to attend the funeral. This day, George has decided to get his affairs in order before he will commit suicide that evening. As he routinely and fastidiously prepares for the suicide and post suicide, George reminisces about his life with Jim. But George spends this day with various people, who see a man sadder than usual and who affect his own thoughts about what he is going to do. Those people include Carlos, a Spanish immigrant/aspiring actor/gigolo recently arrived in Los Angeles; Charley, his best friend who he knew from England, she who is a drama queen of a woman who romantically desires her best friend despite his sexual orientation; and Kenny Potter, one of his students, who seems to be curious about his professor beyond English class.

Um grito a dois: Kandinsky

Grito 26

Doente

Comprei uma casa para fugir do teu amor. Que me matava, sufocava e, sobretudo, me afastava de tudo o que queria fazer. Comprei uma casa, muito pior do que a nossa que foi sempre só tua, para me isolar de ti. Não se trata apenas de amar o homem que não quero para mim. É muito pior do que isso – é amar quem me destrói e desejar isso. Sei que o mundo está cheio de mulheres “que amam demais” os homens errados para elas, que pensam não conseguir viver sem eles, autênticas heroínas modernas que se distinguem das clássicas apenas porque podem fugir, partir, ir embora, morrer… e não querem, nem vão.
Posso resumir a nossa vida a uma repetição exaustiva de estados iguais: o desejo físico intenso; o amor incondicional; o desencontro nas rotinas; a tensão latente; a tensão explícita; a agressão; a ruptura; o vazio; as saudades; o reencontro; e de novo o desejo físico intenso; etc. O tempo que mediava entre o primeiro estado e o último variava entre um dia e um mês e eu estava sempre numa situação de ruptura emocional motivada pela instabilidade a que me sujeitava.
Tu eras mais básico e estável e, por isso, apenas te dividias entre coisas boas e más: a minha pessoa ora era fonte de prazer e era uma coisa boa, ora era fonte de ódio e era uma coisa má. Odiavas-me com mais intensidade e durante mais tempo do que o que me amavas. Tive que aprender a amar-te mesmo quando me odiavas e tratavas mal simplesmente porque não era capaz de odiar ninguém durante tanto tempo e sentia muito a tua falta.
Sentir a falta de alguém é seguramente a maior escravidão. Nunca mais nada está no sítio. Todos os lugares parecem desertos apenas porque tu não estás lá. Todas as pessoas carecem de interesse e quase suspiramos pelo que nos levou a fugir. Ficamos confusos e doentes. O resto da vida depende do quanto doente ficamos e de como saímos dessa doença ou quanto tempo nos deixamos embalar por ela.
Sofrer não é a pior coisa do mundo. Não pode ser a pior coisa do mundo. Demoramos tanto tempo a desistir de sofrer que, hoje, acredito que temos que ter ganhos com o sofrimento. Da última vez que fugi de ti, até hoje, quis, até ao último minuto, que não me deixasses ir embora, que me pedisses para ficar, que me pedisses desculpa, que acontecesse qualquer coisa que me permitisse ficar com alguma dignidade. Mas, do teu lado, não veio um único sinal e eu tive que ser coerente, pelo menos uma vez na nossa curta vida.
Estive (estou ainda?) viciada em ti, dependente até ao tutano. Respirava por ti, acordava para te ver, passava o dia a pensar no momento de estar contigo, pensava em ti constantemente, sentia que tinha que te aproveitar porque um dia tudo acabaria, arranjava-me como sabia que gostavas, comprava-te prendas para te alegrar… e nunca me chegavas. Se estava contigo vinte e quatro horas queria o dobro. Se passava um mês contigo, sentia que só um ano me faria feliz e foi assim que cheguei à eternidade: nunca me bastarias. Por mais que te tivesse sabia que nunca te teria completamente. Não seríamos o tipo de casal que engorda na sua felicidade calma.
Quando entrei pela primeira vez na casa que comprei para fugir de ti ela pareceu-me pequena, sem luz, sem vistas bonitas. Pareceu-me de facto o ideal para fugir: anular-me lá dentro, dormir dias sem fim, alimentar-me só o suficiente para não morrer, não estar com ninguém, não limpar nem arrumar a casa, não atender o telefone nem abrir a porta, deixar-me ir. Sofrer como um cão abandonado num sítio desconhecido.
Hoje, já um pouco longe de tudo isso, a casa parece-me um pouco maior, ainda não consigo perder-me dentro dela, mas já abri as cortinas e deixei entrar alguma luz. Despejei o saco do lixo e comprei uma televisão. Há dias dei comigo a raspar as portas (castanhas) para as pintar de branco. Colei algumas fotografias de amigos nas paredes e liguei o fogão. Não é ainda um lar, mas já a sinto como um refúgio, um lugar que me abraça nas noites em que a memória que de ti tenho me assalta e se apodera de mim.